domingo, 6 de março de 2016
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Improviso
Eu li a previsão do tempo
Não se preocupe, não virá temporal.
Você me fala sobre suas dissonantes paixões, sobre uma mente que vaga pelos desertos de um coração ou pelos interiores de algum sertão.
Ainda enxergo a beleza da dor, das sensações que brotam do âmago do dissabor da desilusão.
Eu olho pra você, busco os vãos dos teus olhos focados em algo que já passou. Eu pouso ali, no vácuo, no eco, na inconsistência gentil que você nem percebe que tem.
Aí então você chora, desagua no ritmo das lembranças ainda tão vívidas, por instantes sinto você mais que a mim mesma, sinto minha anestesia solidificando-se.
Acesso o inacessível: você retalha as palavras e as joga em mim, faço delas um manto pra aquecer meus pés cansados.
Eu estou aqui, ainda estou aqui, enquanto você vai e volta, frenética.
Era tão imprevisto esse nosso improviso, essa canção não ensaiada.
Eu sinto a desassociação, essa alma que plana enquanto o corpo se funde ao meu.
Minha alma se mantém e é penetrada, exposta, em órbita, envolvida nas tantas voltas dessas idas e vindas.
sábado, 2 de janeiro de 2016
A (quase) queda
Percorrendo os mais infinitos caminhos como gotas, milhares de gotas.
Te ver escorrer é frio e sem sentido. É ver dissolver aquela certeza de que você é parte, mesmo que em tantas partes.
E você vai se empoçando embaixo dos meus pés.
Hoje tuas águas são rasas, são inofensivas ao meu fôlego frágil. Me lembro de quando você chegou: oceano de águas inquietas e paisagem deslumbrante.
Secaste!
Aqui eu sinto doer, em doses homeopáticas.
Os cortes são superficiais, nenhum profundo, mas em quietude, esse pouco, eu sinto doer.
Ainda penso sobre jogar o barco contra o mar, velejar ao sabor do vento.
Fostes um oásis!
Inebriei-me no seu sorriso - largo, bonito - e tantas vezes nele me perdi.
Era só uma esperança boba, pintada em aquarela, de sair daqui, de sair de mim.
Estou olhando pra dentro. Eu me sinto tão aqui dentro! Pausada na queda, já não posso sentir o frio na espinha, só a certeza imatura de que foi melhor não cair.
Tudo bem que você não pule agora, garota! Não é bom que vá se o medo ainda te acorrenta os tornozelos.
Mas voa, um dia, quando o sol te aquecer a pele, feche teus olhos e voa.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
O grito preso na garganta e a ânsia a pender meu corpo pra frente involuntariamente.
Eu quero vomitar essa angústia. Nada disso cabe em mim mais, eu tremo, chacoalho a cabeça, rio desesperadamente, meu corpo inteiro é redenção, e me mantenho suspensa pela incapacidade de exprimir a dor.
Eu estou enlouquecida meu bem, solitária e tão tola, com tudo nas mãos, correndo a qualquer canto desajustadamente. Eu sou um desajuste de olhos úmidos e braços cansados.
Há um aperto, um sufoco que não se toca, não se atinge, e comprime, comprime e cala o soluço de um choro desesperado. E os dentes apertados, sofridamente apertados não fazem nada por nós.
Sua pele é o lugar mais seguro que eu já estive e hoje sinto-a desmanchar por entre meus dedos, virando pó, nada se mantém e eu me perco tentando recolher as partículas quase invisíveis do que fomos nós.
Caí em tentação, trai a mim mesma, pisei no meu próprio pé no balançar inconsistente da dança que não me cabe mais. A música piegas que dedilhei nos teus cabelos é só o retrato ingênuo do meu amor em órbita.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Mil vezes
E ainda assim você não estará sozinha
A noite vai cair milhares de vezes aos seus pés
E eu estarei no silêncio
Ou no ranger incômodo de uma velha porta.
Do lado de cá,
Abrirei meus olhos pela manhã mil vezes
E as manhãs entraram em meu peito como um rompante
Chuvosas ou calorosas, eu as sentirei num arrepio.
O teto estará logo ali, ao alcance dos meus dedos compridos
Então te encontrarei entre minhas pálpebras.
Algumas lágrimas ainda cairão,ainda assim andarei mil milhas
Até que meus pés cansados não me deixem continuar.
Estaremos tão longe de nós mesmas,
Teremos milhares de perguntas sem respostas
E daqui algumas porções de quedas noturnas
Talvez eu já não sinta mais essa dor dilacerante
Dos meus órgãos se comprimindo lentamente
E cada célula do meu corpo se contraindo para encontrar conforto.
Talvez haja conforto no dessabor do esquecimento
Mas não haverá o que me tome da memória
O ritmo sincronizado de sua respiração ao ressonar junto a minha.
Eu espero angustiada os tais mil dias passarem
E em segredo eu te esperarei mesmo que me diga mil vezes:
"Querida, eu não vou voltar..."
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Aquele segundo esquecido
Existiu um segundo que você, certamente, não pegou.
Alguns milésimos de um profundo abismo entre as cordas do violão
E meus dedos cansados.
Um pequeno espaço no vão do mundo.
Lá estou eu, ainda
Enquanto o tempo passa e tudo se move tão depressa a minha volta.
Lá estou eu, ainda
Presa no encanto, no espasmo tímido, no momento em que meus olhos descuidados cruzaram com os teus.
(Eu não deveria ter ficado. Mas acontece que eu fiquei.)
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Eu olho pra você, você me olha assim, tão lá no fundo,
E nos perdemos nessa imensidão.
Minhas pernas bambas,
Tuas mãos firmes na minha cintura.
Eu sou um pássaro de asas abertas quando você abre esse sorriso.
Esse sorriso que liberta
E me acoberta os maiores pecados.
Não sou de toda ilusão,
Meu coração me pede pra ficar
Minhas mãos suadas querem te tocar,
Bagunçar seus cabelos,
Embaralhar tuas ideias.
Você se envolve nos tecidos das minhas saias coloridas,
Eu abro mão das certezas
Me inspiro na beleza da escuridão.
Tateio todo o teu corpo como quem permeia a imensidão,
Essa ferida no meu coração ainda dói e não quero esquecer.
A chuva que desaba do céu me acolhe a alma nessa cidade cinza.
Eu não tenho mais medo de me perder por aí.
Quando teu corpo encontra o meu,
Quando, ofegante, me perco no teu cheiro, não quero mais voltar,
Quero o labirinto infinito!
Não quero a certeza de um caminho calmo,
Calmaria não me me move!
Quero a turbulência infundada que me causa tua pele na minha.
O arrepio, a fusão, o caos!