segunda-feira, 4 de maio de 2015

Afrontemos!

Há não muito tempo atrás eu passava alguns longos minutos, nunca menos que trinta, intercalando os mais diversos produtos cosméticos no meu rosto. Hoje, quando olho no espelho e vejo a pele crua às vezes me angustio. Quando os dias estão mais pesados eu até evito os reflexos. Ainda não tinha tido tempo emocional para refletir sobre isso e sobre como me sinto em relação às tantas mudanças de comportamento dos últimos meses. A única certeza que carreguei nesse tempo é que não faz mais sentido esconder o que sou, em cada detalhe, em todos os pormenores.
 Dia desses vi uma linda moça, com aquela clássica maquiagem básica: sem exageros, maçãs do rosto rosadas e um ar 'saudável' e feliz. Fiquei pensativa e um pouco triste.
Pensei nas tantas vezes em que usei produtos em ordem sistemática que prometiam em suas embalagens e fórmulas milagrosas que me fariam parecer saudável e feliz. Eu queria tanto ser feliz, eu queria ter as bochechas sempre rosadas e um olhar brilhante.
Meus olhos são pequenos e por isso eu seguia tutoriais de como dar a impressão de que são maiores, como "valoriza-los". Mas tanto quanto pequenos eles são sensíveis, por isso passei anos tentando conter o ardor dos pequenos olhos castanhos. Isso tudo me parecia tão normal que hoje me assusta profundamente.
Qual o real problema em ser o que se é naquele momento? Qual o problema em parecer cansada quando se está cansada? Qual o problema em ter os olhos tristes quando é necessário esconder a tristeza para ser aceita em sociedade? E não simples e verdadeiramente aceita, mas aceita dentro do processo de aprisionamento, dentro do padrão de se estar de acordo com molde designado por um sistema agressor, violador, mutilador e que massacra nossas reais identidades. Violamo-nos para não sermos marginalizadas por nossos agressores. 
Isso é triste, eu me sinto tão triste.

Passei uma vida inteira tentando disciplinar meus cabelos, mas como poderia fazer qualquer sentido disciplina-los se há em mim a rebeldia, o desconforto constante, o pulso incessante do inconformismo?
Fui tão profundamente rejeitada pelo que fui desde que nasci que ainda me pego, mesmo dentro da elucidação que conquistei, me odiando, me modificando, tentando encontrar um encaixe entre o que sou e aquilo que disseram que sou.
Somos tão roubadas de nós mesmas e modificadas que a reconstrução se torna uma tarefa árdua e angustiante.
 Preciso lembrar e reafirmar a mim mesma o tempo todo que não há nada de errado em deixar-me ser, em deixar-me fluir.
Meu rosto cru, minha pele com marcas, cicatrizes, pelos, inconstâncias, vincos e rugas. Minhas gorduras, minha pele flácida, as linhas das estrias, essas que se desenham sozinhas pela pele sem que ninguém as guie, sem que ninguém as controle, elas simplesmente vão e percorrem a pele. Todas essas marcas são representações visíveis, algumas até em alto-relevo, da minha, da nossa, história. Por que tentam apagar nossas histórias? Porque mulheres não podem ter historia, não podem ter vivências, não podemos ter experiências, precisamos ser um livro em branco para que os homens possam nos preencher, nos escrever, apagar e reescrever, e assim consecutivamente.
Somos desviadas o tempo todo de nosso autocontrole, temos medo de não estarmos “em branco” e branquificadas (em todos os sentidos) o suficiente para eles. Estamos rebocando nossas peles, esticando nossos cabelos, esguiando nossos corpos cansados, equilibrando-nos em saltos, tirando nossos tão naturais e necessários pelos de mulheres adultas para reforçarmos um desejo doentio de infantilização e dominação de nossos corpos.
E eu estou morrendo de medo de ser marginalizada por meus agressores, eu estou morrendo de medo do que - ou quem - me torna ter consciência de tudo isso, eu estou morrendo de medo de não estar no controle deles, porque eu sei o risco que corro por ser livre, por não servi-los: eu me torno uma afronta ao patriarcado.
Mas muito maior do que meu medo é minha raiva, meu inconformismo por não ter tido a chance de saber o que eu sou, por ter reconhecido o mundo, junto com meus primeiros passos, como um lugar hostil para mulheres.


Estou em movimento, não posso parar, preciso juntar as peças perdidas (e me juntar às minhas irmãs perdidas) no tempo e reinventar aquelas que faltarem. Pois, para além de todas as dificuldades de resistência para existir como mulher, eu existo como lésbica, e a resistência lésbica, manas, essa é realmente revolucionária.

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