Embaraço,
Como nos fios de seus cabelos crespos.
Dou lugar ao desencontro, perco-me nos escombros e sinto o frio na espinha.
Escorro, líquida, por minhas próprias pernas.
Condenso, estou por toda parte menos dentro de mim. Olho-as como quem entende de si.
Esvazio-me, calada, no final do dia, cansada.
Há um lugar aqui, no canto, onde canto todas as dores em tantos tons.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Pra que você vá
sábado, 25 de abril de 2015
A Lésbica
Sinto me dividida, em duas, em três ou mais. Me puxo quando estou quase à direita, volto me ao centro, mais alguns instantes e me puxo novamente quando estou desbravando a esquerda. Vou pra frente, corro para trás. Estou disforme, atônita, cansada e feroz.
Essas músicas não me contemplam, esses olhares me invadem, meu corpo está perceptível a mim, incômodo. Cheguei ao centro, forçada por mim mesma. Mantenho-me em silêncio, carrancuda, com medo.
Não quero que eles me toquem, sinto repulsa ao esbarrar em um corpo masculino.
Ainda trago a sensação de estar traindo a mim mesma por sentir-me assim, não foi isso que fui ensinada a ser. (Esse sentimento muda um dia?)
O prazer e a dor nunca estiveram tão próximos e conectados.
Me preencho numa cirurgia animalesca, não há sedativos capazes de eliminar a sensação.
A gorda está desperta, há um disparate entre mim e ela, e já sinto-me esvaindo para que ela tome seu lugar. (Tome-me pra si, gorda!)
A lésbica, junto a gorda, está me tomando cada pedacinho. Não consigo mais tirá-las daqui, em um misto de angústia e desespero eu as abraço.
Se não posso mais escondê-las então que elas me tomem o corpo e me envolvam de luta.
A mulher que sou não se caracteriza mais pelas saias rodadas ou pelas pérolas que vovó me ensinou a ornar, quem dera eu pudesse dizer a ela que a ensinaria a arte das letras em gratidão por ter sido um dos elos da resistência feminina de nossa genealogia.
Não ensinei minha avó a ler e escrever, tão pouco me tornei professora como assim ela sonhava pra si. Vovó morreu com as mãos calejadas da enxada e queimaduras do fogão. E ela tinha medo do escuro, assim como eu... Ela sabia que corria risco no escuro, assim como eu.
Vovó morreu gorda, violada, abusada, cansada e com o ventre marcado por cinco gestações enlutadas.
Nutro hoje a saudade extenuante e culpabilizadora por não ter sido companheira dela. Hoje, busco em cada olhar feminino o elo que vai nos unir.
E nutro o ódio, o vergonhoso ódio da menina que nasceu pra amar, o vergonhoso asco da menina que nasceu pra ser doce, que carrega em seu nome o Rosa, esse nome tão lindo que violentou minhas ancestrais.
Estou absolutamente perdida, sentada ao meio fio, as memórias são muitas e nem pra todas estou pronta para deixar que emerjam.
Preciso de calma, de um abraço apertado, da ausência dos que me ocupam a mente no dia a dia.
Estou em negação e aceitação simultaneamente. Negando a mulher que me disseram que eu sou e aceitando aquela que, hoje, desabrocha, não mais como uma flor mas como uma serpente que invade a espinha dorsal.
Choro a solidão das lésbicas que se esconderam, choro a minha própria solidão das vezes que me nomeei gay, e num suspiro aliviado perdoo minha mãe por ter-me calado o gozo com humilhações e castigos. Ela esteve comigo bem mais do que alguém pode estar com ela.
Canto baixinho a canção de ninar que acalmou o coração alucinado da menina de sete anos que foi pra sala de terapia, pro centro espírita, pro terreiro de umbada, pra apometria, e alguns anos mais tarde pra psiquiatria.
Meu pânico de mim mesma , minha instabilidade, minha histeria.
Tudo tão meu, tudo tão cruel.
Cerro meus punhos quando ando por aí, sinto franqueza nos músculos e brutalidade nos pelos não mais mutilados, não sou de todo mulher, tampouco homem, menos ainda uma mistura ou uma variação de ambos, sou LÉSBICA. E isso meu organismo, minh'alma e eu ainda estamos descobrindo o que é.
Caminhos tortuosos para os pés sem calos de codificação trinta e nove.
Há muito pouco, do todo que fui, por aqui hoje, e há um oceano de tudo que ainda serei a minha frente.
(peço licença a mim mesma para, no desfazer e refazer de uma porção de coisas, ainda manter o rivotril)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Chata e feminista (e o carnaval)!
Fui ao convite de uma amiga e mais me interessou encontra-la do que propriamente dito o evento. Mas a verdade é que ter participado desse evento, pra mim, foi uma saga.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Dos dezenove aos aos vinte e tantos
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Dos sonhos que vivi
Como que vem depois de uma longa caminhada e pode agora respirar, descansar.
sábado, 24 de janeiro de 2015
A falta de cabelos e o gostinho da liberdade.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
As bruxas e a bolha
As bruxas são feias, são fedorentas, tem cabelos armados e nariz grande, ah, e não podemos esquecer da risada : uma risada escandalosa e incômoda.
Hoje, aos vinte e quatro, muitos meses e reflexões sei o quanto fui enganada e direcionada a ser quem eu
Para que possam entender onde quero chegar preciso contar-lhes sobre a bolha em que estive imersa na última semana:
Passei cinco dias em um curso de imersão com mais quase quarenta mulheres em um lugar cercado de arvores, bichos, terra,vinho,fogo e crias. Mal sabia eu a poção que estávamos preparando ao juntar esses ingredientes poderosos.
Foram cinco dias de descobertas, de revelações, de lágrimas e muitas gargalhadas. Havia uma magia no ar, e a tal sororidade fez-se presente sem que nenhuma teoria-academicista-feminista fosse necessária.
Algumas de nós estavam realmente bem machucadas, com feridas abertas e em carne viva, outras ainda se recuperando de cicatrizes mal cicatrizadas, e mais outras que mal sabiam os machucados que estavam escondidos. A verdade é que a imersão emergiu e transbordou e todas fomos cuidadas e amparadas de alguma forma.
Descobrimos nossas dores e lágrimas, aquelas que não choramos no passado por pressão de nos mantermos fortes.
Descobrimos também nosso sexo, aquele que passamos uma vida inteira ouvindo ser sujo,pecaminoso e violável. Tocamo-nos, sem medo, sem poder e sem pudor. Deixamos ser, deixamos fluir e gostamos.
Descobrimos que as mulheres são diferentes em seus formatos, em seus cheiros, em seus gostos e que somos todas muito complexas e lindas.
Sim! O clichê feminista fez-se real : Somos todas lindas!
Admiramo-nos: nossa força, nossas fraquezas, nossas curiosidades, e nosso poder de maternar não só as crias mas a nós mesmas e as outras.
Olhamos fundo nos olhos uma das outras e nos abraçamos em volta de uma fogueira. Queimamos nossas dores e trocamos nossas peles como cobras, que não são animais ardilosos!
Conectamo-nos com a mãe-terra, conectamo-nos umas com as outras e criamos uma rede, uma bolha. Eis que a bolha se formou sem que nos esforçássemos para tal. Ela simplesmente se formou.
Eu, particularmente, pude então perder meu medo de bruxas de uma vez por todas.
Descobri que nós somos todas bruxas e que por isso aprendemos a ter medo delas. É perigoso que descubramos nossas forças e nosso poder de união, podemos destruir e construir um universo inteiro.
Vi e senti mulheres com narizes de todos os formatos, mulheres que suam e exalam cheiros fortes, mulheres que tem pelos por todo o corpo, mulheres com cabelos esvoaçantes, mulheres com gargalhadas estridentes, altas, que ecoam! E precisamos rir! Precisamos rir histericamente para liberar essa energia atravancada, podada, encarcerada.
Somos nós aquelas bruxas: Somos nós essas bruxas!
Somos as netas das bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição, somos as herdeiras do poder de criação, somos altamente capazes de ter empatia, somos extremamente fortes e delicadas.
E antes que eu me esqueça : somos gordas e magras,temos fluidos corporais, ciclos menstruais, uma ligação fortíssima com os ciclos lunares, pelos por toda parte e uma linda e magnifica vagina.
Todas temos vagina, e essa parte do nosso corpo é nosso caldeirão de poções magicas!
Nossa vagina e nosso útero são capazes de concentrar e gestar um fluxo intenso de energia - o mais intenso que qualquer ser humano pode produzir : uma vida! - e temos milhões de ramificações nervosas que nos permite ter prazeres transcendentais!
Só nós temos um órgão feito exclusivamente para sentir prazer : o clitóris.
E após descobrirmos tantas coisas não podemos, minhas irmãs, deixar que isso se perca. Precisamos nos manter conectadas porque o fluxo da "vida real" ( vida patriarcal) quer nos tirar toda essa força e nos fazer novamente sentir medo das bruxas.
E se voltarmos a ter medo das bruxas, queridas, teremos medo de nós mesmas! E nos queimaremos, pouco a pouco, sem que percebamos que o estamos fazendo.



