quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pra que você vá

Embaraço,
Como nos fios de seus cabelos crespos.
Dou lugar ao desencontro, perco-me nos escombros e sinto o frio na espinha.
Escorro, líquida, por minhas próprias pernas.
Condenso, estou por toda parte menos dentro de mim. Olho-as como quem entende de si.
Esvazio-me, calada, no final do dia, cansada.
Há um lugar aqui, no canto, onde canto todas as dores em tantos tons.

sábado, 25 de abril de 2015

A Lésbica

Sinto me dividida, em duas, em três ou mais. Me puxo quando estou quase à direita, volto me ao centro, mais alguns instantes e me puxo novamente quando estou desbravando a esquerda. Vou pra frente, corro para trás. Estou disforme, atônita, cansada e feroz.
Essas músicas não me contemplam, esses olhares me invadem, meu corpo está perceptível a mim, incômodo. Cheguei ao centro, forçada por mim mesma. Mantenho-me em silêncio, carrancuda, com medo.
Não quero que eles me toquem, sinto repulsa ao esbarrar em um corpo masculino.
Ainda trago a sensação de estar traindo a mim mesma por sentir-me assim, não foi isso que fui ensinada a ser. (Esse sentimento muda um dia?)
O prazer e a dor nunca estiveram tão próximos e conectados.
Me preencho numa cirurgia animalesca, não há sedativos capazes de eliminar a sensação.
A gorda está desperta, há um disparate entre mim e ela, e já sinto-me esvaindo para que ela tome seu lugar. (Tome-me pra si, gorda!)
A lésbica, junto a gorda, está me tomando cada pedacinho. Não consigo mais tirá-las daqui, em um misto de angústia e desespero eu as abraço.
Se não posso mais escondê-las então que elas me tomem o corpo e me envolvam de luta.
A mulher que sou não se caracteriza mais pelas saias rodadas ou pelas pérolas que vovó me ensinou a ornar, quem dera eu pudesse dizer a ela que a ensinaria a arte das letras em gratidão por ter sido um dos elos da resistência feminina de nossa genealogia.
Não ensinei minha avó a ler e escrever, tão pouco me tornei professora como assim ela sonhava pra si. Vovó morreu com as mãos calejadas da enxada e queimaduras do fogão. E ela tinha medo do escuro, assim como eu... Ela sabia que corria risco no escuro, assim como eu.
Vovó morreu gorda, violada, abusada, cansada e com o ventre marcado por cinco gestações enlutadas.
Nutro hoje a saudade extenuante e culpabilizadora por não ter sido companheira dela. Hoje, busco em cada olhar feminino o elo que vai nos unir.
E nutro o ódio, o vergonhoso ódio da menina que nasceu pra amar, o vergonhoso asco da menina que nasceu pra ser doce, que carrega em seu nome o Rosa, esse nome tão lindo que violentou minhas ancestrais.
Estou absolutamente perdida, sentada ao meio fio, as memórias são muitas e nem pra todas estou pronta para deixar que emerjam.
Preciso de calma, de um abraço apertado, da ausência dos que me ocupam a mente no dia a dia.
Estou em negação e aceitação simultaneamente. Negando a mulher que me disseram que eu sou e aceitando aquela que, hoje, desabrocha, não mais como uma flor mas como uma serpente que invade a espinha dorsal.
Choro a solidão das lésbicas que se esconderam, choro a minha própria solidão das vezes que me nomeei gay, e num suspiro aliviado perdoo minha mãe por ter-me calado o gozo com humilhações e castigos. Ela esteve comigo bem mais do que alguém pode estar com ela.
Canto baixinho a canção de ninar que acalmou o coração alucinado da menina de sete anos que foi pra sala de terapia, pro centro espírita, pro terreiro de umbada, pra apometria, e alguns anos mais tarde pra psiquiatria.
Meu pânico de mim mesma , minha instabilidade, minha histeria.
Tudo tão meu, tudo tão cruel.
Cerro meus punhos quando ando por aí, sinto franqueza nos músculos e brutalidade nos pelos não mais mutilados, não sou de todo mulher, tampouco homem, menos ainda uma mistura ou uma variação de ambos, sou LÉSBICA. E isso meu organismo, minh'alma e eu ainda estamos descobrindo o que é.
Caminhos tortuosos para os pés sem calos de codificação trinta e nove.
Há muito pouco, do todo que fui, por aqui hoje, e há um oceano de tudo que ainda serei a minha frente.
(peço licença a mim mesma para, no desfazer e refazer de uma porção de coisas, ainda manter o rivotril)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Chata e feminista (e o carnaval)!


                                                           (É por enquetes como essa que precisamos do feminismo)

Ontem pela primeira vez, desde que me lembro, (afinal já vi fotos minha de bebê vestida de “baiana”) fui à um bloco de carnaval de rua em São Paulo.
Fui ao convite de uma amiga e mais me interessou encontra-la do que propriamente dito o evento. Mas a verdade é que ter participado desse evento, pra mim, foi uma saga.
Uma saga em que aspecto? Logo chegarei lá, mas já adianto que escrevo esse texto ainda a flor da pele, ainda com muitos pensamentos inconclusivos e uma vasta incompreensão por minha forma de reagir aos acontecimentos.
O momento em que cheguei à rua que concentrava os foliões tive vontade (e assim o fiz) de dançar, pular, sorrir. Muito me agrada a possibilidade de ocuparmos as ruas da metrópole, de tirarmos os carros do protagonismo e colocarmos a nós, as pessoas. Isso me agradou mais ainda sendo um evento de vazão a brincadeiras, alegria, com direito a crianças e bebês. Ah, essa parte realmente me agrada!
Porém com o passar do tempo no meio da multidão lembrei-me o porquê eu estava a tanto tempo excluída de eventos sociais que fugissem da minha zona de conforto, a verdade é que é insuportável o nível de assedio que sofremos nesses locais de aglomeração que tem dois ingredientes explosivos : homens e bebidas.
É nessa parte que entra o título desse texto: feminista e chata!
Não poderia ser de outra maneira, afinal de contas como feminista e com os poros do acionamento abertos eu não poderia ser outra coisa que não chata. Absolutamente chata.
E mais do que isso, eu preciso dar-me o direito de o ser. Estou atenta como um radar, tenho olhos nas costas e sinto  a distancia cada aproximação não amigável, sendo assim, como poderia me divertir e ser agradável?
Eis que a crise se instala: Não posso permitir que esses atos de violência muitas vezes camuflados de flerte, outras vezes no escancaro total, tornem-se banais e aceitáveis, mas como a maioria das pessoas encaram-no como tal, não por escolha, mas sim por estarmos todos inseridos em uma sociedade patriarcal e machista (dou-me o direito dessa redundância por acha-la necessária) torno-me uma ameaça para os homens e uma histérica para algumas mulheres.
Os olhares dos homens às mulheres mais pareciam de abutres desejando um pedaço de carne do que qualquer outra coisa. Eles mexiam em seus órgãos genitais ao visualizar uma bela mulher, tiravam fotos e filmavam seus corpos, abraçavam-nas sem saber se assim o podiam, seguravam seus braços, e não muito raramente forçavam beijos. Essas cenas todas me transtornaram, praticamente nenhuma mulher conseguia se divertir em paz e deslocar-se sem sofrer algum tipo de assedio.
Estávamos, minha amiga e eu, acompanhadas de mais três meninas: sua irmã e duas amigas australianas, as três menores de idade e belíssimas. Porém as estrangeiras chamavam mais atenção dos homens por terem traços muito diferentes dos nossos (cabelos loiro natural, olhos claros, corpo esguio) e por um comportamento de deslumbre com o nosso carnaval.
Ficamos o tempo inteiro tentando desviar dos abutres, a cada meio metro andado algum homem (e em alguns casos grupo de homens) nos barrava, nos seguia, e umas três ou quatro vezes houve coação e limitação do nosso espaço vital. Insisto em usar esses termos para que possamos enxergar atitudes como: “xavecar uma menina”, “tentar beijá-la”, “pedir seu telefone” e “ser insistente” que são tratadas em revistas juvenis como coisas naturais da juventude, e que muitas vezes aparecem antecedidas de receitas para como fazê-las, como abusos e violências reais.
Somos cerceadas do nosso direito de locomoção, do nosso direito de não sermos tocadas por quem não permitimos e, como pude presenciar muitas vezes ontem, nos casos em que deixamos claro que estamos incomodadas somos ofendidas, ameaçadas e humilhadas.
Não, revistas juvenis, nós não merecemos isso! Parem de dar receitas de como conquistar uma garota na balada!
                                                             (Matéria da revista Capricho)

Hoje, atenta a situações tão deprimentes como essas, percebo como me culpei aos quinze, dezesseis anos por me sentir coagida em baladas, como me culpei por não conseguir sentir-me bem sendo olhada pelos homens que me desejavam, como sofri a primeira vez que um garoto que eu estava ficando colocou minha mão dentro de seu short e eu tive medo de tirá-la.
Ontem, aos vinte e quatro, depois de dois ou três anos inserida na causa feminista, percebi a olho nu o porquê não frequento festas heteronormativas, e mais do que isso, percebi o quão ainda estou machucada por todas as vezes que fui abusada, violentada e nada fiz. Percebi o quanto eu gostaria de ter a Rafaela de hoje cuidando da Rafaela de dez anos atrás, o quanto eu gostaria de ter mostrado a ela que não é normal ser tratada assim, que não é nossa culpa,(e como eu disse ontem à uma das australianas de apenas dezessete anos que se desculpou por não saber o que fazer em relação aos assédios constantes : “It’s not your fault!”) e que ela era só uma garota tentando se encontrar.
Diante de todos esses acionamentos, de todos esses encontros com o passado, nada mais natural que sentir raiva, nojo e um desgosto profundo pelos causadores dessa dor. E diferente do que fiz no passado (por ingenuidade e falta de conhecimento) hoje vou respeitar meu luto, meu tempo, meu ódio, meu corpo e minha necessidade de introspecção.
Hoje estou mais consciente dos riscos que corro por ser mulher e por isso tenho muito mais medo. Então camaradas, não peçam para ter calma, não me digam que estou generalizando, não me digam para ser simpática ou legal.
Serei chata, extremamente chata, corrosiva e terei uns mil pés atrás com qualquer homem que seja.

E é por isso que preciso do feminismo, porque preciso estar na defensiva para poder sobreviver.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dos dezenove aos aos vinte e tantos

Eu conheci uma garota, e ela passou por mim algumas vezes, como uma brisa, leve e quase imperceptível.
A verdade é que mesmo vendo-a, quietinha, por perto, eu não quis olhar.
Mas ela veio pra mais perto, e quando assim se aproximou eu preferi olhá-la com olhos maternos, com olhos de quem acolhe - por subestimação.
Sim, eu tenho ainda muitas armadilhas no percurso entre o que eu sinto e o que eu digo.
Eu a acolhi, e ela me beijou.
Eu emudeci. Calei com a boca úmida, com as mãos trêmulas e o coração machucado.
Ela, no auge dos seus dezenove anos fez-me encarar os meus fajutos vinte e quatro.
Ainda encontro-me (quando encontro) tão despedaçada, tão frágil, como uma boneca de porcelana.
Ela disse, por mais de uma vez, admirar a minha força. E quando olho no espelho eu procuro essa força para além dos cabelos raspados.
Seu sorriso é um sorriso de esperança, o sorriso de quem ainda crê. Esse sorriso me assusta, é cru.
Cigarro entre os dedos, e na boca, por tal, a vaga lembrança do gosto da saliva de uma garota que beijei aos quinze anos.
Marcas de um passado recente por todo o corpo, fazendo-nos lembrar de que a vida fere, machuca, sangra, até mesmo na pele macia de uma bela garota.
E esses conturbados dezenove anos põe meus vinte e quatro em unidades, sinto-me aos dois, sinto-me aos quatro, sinto-me dissolvida, e com saudades de quando eu desenhava na tela em branco da cabeça os tão distantes vinte e tantos.
Os tantos estão por aqui, rodeiam-me, puxam-me os pés ao anoitecer e tiram-me o direito de chamar por meu pai quando o medo é indissolúvel.
Hoje, exatamente agora, eu choro. Choro o choro da menina de quinze anos, a menina que amou como quem morria, que odiou como quem amava, que fez de tudo um pouco de si e que transformou em poesia toda esse caos. Vandalizou as palavras, arrancou do peito cada letra, e passou noites a fio traduzindo a língua estranha de seus monstros.
É pra essa menina, que talvez soubesse muito mais do que eu como estar nessa vida, que eu peço perdão.
Perdão pela subestimação, pela vergonha que eu senti, pelas tantas vezes que te anulei e te calei por ser uma garota de quinze ou dezesseis.
Você foi parte complementar e essencial pra nós.
E deixa-me contar-lhe um segredo – que fique entre nós -: Eu ainda não sei entregar meu corpo a outrem sem que eu esteja entregue a mim primeiro. Travo. Choro. Calo.
E espero que sinta orgulho de mim, pois, hoje, eu não tenho medo de dizer não.
E eu não vou enganar a nós e nem a nenhuma garota, tão pouco a menina dos dezenove de pele macia.
Eu direi à ela que ainda não estou pronta pra dar passos sem bambear, de andar em linha retas. Preciso, de quando em quando, me encasular, ter medo e chorar.
Caminharei ao lado dela, de mãos dadas, se assim ela quiser. Mas não mais direi que sou o que não sei se sou, ou que posso aquilo que ainda busco saber o que é.

Não tenho vinte e quatro, tenho um tempo, um coração imenso, sensível, e olhos sempre úmidos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Dos sonhos que vivi

Sonhei contigo mais uma vez, estive tão inebriada que pouco sei do quanto era sonho de tudo que vi e senti.
Emudeci, como quem perde as palavras, como quem não sabe mais como dar sons à elas.
Saí de mim como quem sai de um café-bar depois de uma discussão fervorosa: sem olhar pra trás.
Ainda não me adaptei a esse mundo, sinto que estou mais aí do que aqui. Não quero ficar!
Não acho que você vá voltar ou olhar pra trás. Passei! Como uma névoa, como uma breve ventania que apenas bagunça seus cabelos, você fecha os olhos, os arruma novamente e caminha adiante... Como tem que ser!
Não acho que poderia ser diferente, minha imaginação faz muito mais por nós do que nós mesmas, e assim sigo, com esse dom suicida de fazer tudo reluzir mais do que deveria.
Enxerguei além do que seus olhos permitiram que eu visse, e colori com tinta a dedo as paisagens de todas as viagens que eu imagino que você fez.
A primavera aqui não tem o mesmo cheiro que aí e assim andaremos pela linha de nossos destinos, você aí e eu aqui...Como tem que ser!
Posso sentir minha pele arrepiar quando ouço você falar do frio que já experimentou, não senti o frio fora dos trópicos, sou inteira tropical, sinto o gosto do calor e tenho uma afinidade gustativa dos fluidos corporais que acentuam-se do lado de cá da linha imaginária.
Estou espalhada em tantas partículas e não consigo organizar de forma adequada meus pensamentos , sou o mais inadequada que eu poderia ser e mantenho-me quieta, calada. Minhas palavras concentram-se nas pontas dos dedos, e eles saltitam de lá pra cá, de cá pra lá, a procura da codificação que possa expressar o grito preso na garganta.
Encontro-me rompida, fios energizados desencapados e um coração em chamas, minhas mãos estão brandas, e meus olhos inquietos. 
Intuitiva! Crua! 
Oscilo entre a simplicidade da carne e a complexidade da alma.
Hora deixo-a de lado, sigo do lado direito da escada, dou-me as mãos. 
Não me esquecerei tão facilmente das vibrações e irregularidades dos seus sons.
Talvez eu não esqueça nunca do quanto estive ilhada ao deixar-me afundar no oceano escuro dos seus olhos. 
Direito ou esquerdo, tanto faz. 
Senti entrar, sentar e ficar. 
Como que vem depois de uma longa caminhada e pode agora respirar, descansar.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A falta de cabelos e o gostinho da liberdade.

Há mais ou menos quatro meses eu raspei meus cabelos pela primeira vez. Desde então venho passando por uma série de reações alheias, desde elogios até mal agouros. O que eu venho tentando entender é como um ato tão simples pode causar tanto incomodo ou comoção.
A verdade é que dentro de mim esse ato não foi simples e tão pouco será (mesmo eu tentando me convencer disso) diante da realidade em que nos cerca.
Ter cabelos curtos ( ou não tê-los) é uma afronta aos homens e um atestado de homossexualidade. Se a falta das madeixas vier seguida de "excesso" de pelos nas outras partes do corpo  e uma tatuagem, que mais parece um rabisco feito de sangue no centro do peito, com o temido símbolo do feminismo aí sim espere o pior das andanças pela rua.
Marquei-me para que eu não me deixasse esquecer dos meus ideais mesmo depois de sofrer ofensas e insultos, para que quando eu amamentar meus filhos eles tenham desde seus primeiros dias de vida esse símbolo como algo familiar e aconchegante, para que meu cheiro e o cheiro do meu leite traga-lhes a conscientização de que não é fácil ser mulher. É preciso resistência, dia-a-dia.
Meus pelos ainda posso optar por tê-los ou não, e tenho optado ( em sua maioria) por tê-los em meu corpo do jeito que são, sem alterações. Porém evito expô-los, evito levantar meus braços no transporte público caso eu esteja de regata, e desde que não raspo meus pelos pubianos e das coxas não transo ou vou à praia sem shorts.
Sobre os pelos do rosto e das pernas eu ainda os tiro. Não assumo meu bigode ou minha sobrancelha a la Frida Khalo ( e olha que eu admiro-a imensamente).
É assustador o quão difícil é manter-me como sou : peluda.
Há pouco dias atrás ouvi da minha mãe : " Isso está horrível, Rafaela!" Meu mundo caiu! O drama de Maysa nunca fez tanto sentido. Mas mantive-me firme e expliquei racionalmente à ela tudo que aquilo significava, e que pensamentos como esse faziam com que a filha dela sofresse diariamente o risco de ser estuprada ( por ser mulher e esteriotipada como lésbica) , espancada, hostilizada e , porque não, morta.
Acho que ela entendeu e em poucos minutos estávamos conversando sobre como a juventude dela foi cercada de preconceitos por ela ser mais "masculinizada" do que a maioria das meninas. 
Não tenho dúvidas do quanto minha mãe sofreu, e assim como ela a minha avó e sua avó mais do que a minha, que era negra.
Por todos esses motivos citados a cima não posso ignorar que potencialmente eu sofri e minhas ancestrais sofreram pelo simples e complexo fato de sermos mulheres.
E eu preciso dizer à ela que não quero ignorar isso!
Um ex affair perguntou esses dias ao cruzar comigo no metrô se eu estava querendo ser como a Thammy Gretchen. Acho que ele quis saber sobre desconstrução de gênero e etc. Segurei-me para não cuspir-lhe na cara, mantive o olhar firme e disse à ele que eu ( pelo menos até agora) identifico-me como mulher mas que não haveria problema caso não fosse assim.
Apesar de não ter muita certeza do quanto isso pode ser irracional e problemático eu tive nojo de ter um dia me envolvido com homens.
É nessa parte que eu escuto coisas como : " É lésbica por ter tido traumas com homens!"
Pois bem, tive traumas sim( descobertos após uma dura conscientização feminista). Mas quantas mulheres não tiveram? 
Ainda estou em um processo de conscientização e procuro não fazer afirmações muito polêmicas em relação a minha relação com os homens do mundo ( dentre eles meu pai e meu irmão), mas de uma coisa eu tenho certeza : Não sinto-me segura perto de homens como antes. Não sinto-me desprovida de questionamentos profundos e tenho tido experiencias muito mais valiosas com mulheres do que tive minha vida toda.
Meu sexo e minha sexualidade que sempre foi altamente flexível, hoje, é firme e responsável : Não me relacionarei com ninguém que eu não me sinta segura e acolhida!
E tenho muito mais colo e carinho para mim mesma do que tive toda a minha vida.
Hoje, relaciono-me, da forma mais liberta que eu conseguir, apenas com mulheres e encontro-me na incrível missão de não competir e não incentivar nenhum tipo de disputa entre mim e as outras mulheres que se relacionam com que eu me relacionar.
Difícil missão! Garanto-lhes!
Esse tema é altamente explosivo por caminhar lado-a-lado com auto-estima, esta que nos é minada desde que nascemos.
Um apanhado de problematizações vão complicar suas vidas de forma jamais vista, minhas queridas. Porém há um libertação que hoje eu posso experimentar levemente e que nem um pulo de para-quedas faria-me sentir, e tenho certo que este é apenas o começo!





sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

As bruxas e a bolha

Aos sete anos de idade eu tinha muito medo de bruxas,não muito diferente de outras crianças dessa idade. Fui uma criança muito medrosa e bruxas me aterrorizaram por muito tempo.
As bruxas são feias, são fedorentas, tem cabelos armados e nariz grande, ah, e não podemos esquecer da risada : uma risada escandalosa e incômoda.
Hoje, aos vinte e quatro, muitos meses e reflexões sei o quanto fui enganada e direcionada a ser quem eu sou  deveria ter sido.
Para que possam entender onde quero chegar preciso contar-lhes sobre a bolha em que estive imersa na última semana:
Passei cinco dias em um curso de imersão com mais quase quarenta mulheres em um lugar cercado de arvores, bichos, terra,vinho,fogo e crias. Mal sabia eu a poção que estávamos preparando ao juntar esses ingredientes poderosos.
Foram cinco dias de descobertas, de revelações, de lágrimas e muitas gargalhadas. Havia uma magia no ar, e a tal sororidade fez-se presente sem que nenhuma teoria-academicista-feminista fosse necessária.
Algumas de nós estavam realmente bem machucadas, com feridas abertas e em carne viva, outras ainda se recuperando de cicatrizes mal cicatrizadas, e mais outras que mal sabiam os machucados que estavam escondidos. A verdade é que a imersão emergiu e transbordou e todas fomos cuidadas e amparadas de alguma forma.
Descobrimos nossas dores e lágrimas, aquelas que não choramos no passado por pressão de nos mantermos fortes. 
Descobrimos também nosso sexo, aquele que passamos uma vida inteira ouvindo ser sujo,pecaminoso e violável. Tocamo-nos, sem medo, sem poder e sem pudor. Deixamos ser, deixamos fluir e gostamos.
Descobrimos que as mulheres são diferentes em seus formatos, em seus cheiros, em seus gostos e que somos todas muito complexas e lindas. 
Sim! O clichê feminista fez-se real : Somos todas lindas!
Admiramo-nos: nossa força, nossas fraquezas, nossas curiosidades, e nosso poder de maternar não só as crias mas a nós mesmas e as outras.
Olhamos fundo nos olhos uma das outras e nos abraçamos em volta de uma fogueira. Queimamos nossas dores e trocamos nossas peles como cobras, que não são animais ardilosos!

Conectamo-nos com a mãe-terra, conectamo-nos umas com as outras e criamos uma rede, uma bolha. Eis que a bolha se formou sem que nos esforçássemos para tal. Ela simplesmente se formou.
Eu, particularmente, pude então perder meu medo de bruxas de uma vez por todas.
Descobri que nós somos todas bruxas e que por isso aprendemos a ter medo delas. É perigoso que descubramos nossas forças e nosso poder de união, podemos destruir e construir um universo inteiro.
Vi e senti mulheres com narizes de todos os formatos, mulheres que suam e exalam cheiros fortes, mulheres que tem pelos por todo o corpo, mulheres com cabelos esvoaçantes, mulheres com gargalhadas estridentes, altas, que ecoam! E precisamos rir! Precisamos rir histericamente para liberar essa energia atravancada, podada, encarcerada.
Somos nós aquelas bruxas: Somos nós essas bruxas!
Somos as netas das bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição, somos as herdeiras do poder de criação, somos altamente capazes de ter empatia, somos extremamente fortes e delicadas.
E antes que eu me esqueça : somos gordas e magras,temos fluidos corporais, ciclos menstruais, uma ligação fortíssima com os ciclos lunares, pelos por toda parte e uma linda e magnifica vagina. 
Todas temos vagina, e essa parte do nosso corpo é nosso caldeirão de poções magicas!
Nossa vagina e nosso útero são capazes de concentrar e gestar um fluxo intenso de energia - o mais intenso que qualquer ser humano pode produzir : uma vida! - e temos milhões de ramificações nervosas que nos permite ter prazeres transcendentais!
Só nós temos um órgão feito exclusivamente para sentir prazer : o clitóris.
E após descobrirmos tantas coisas não podemos, minhas irmãs, deixar que isso se perca. Precisamos nos manter conectadas porque o fluxo da "vida real" ( vida patriarcal) quer nos tirar toda essa força e nos fazer novamente sentir medo das bruxas.
E se voltarmos a ter medo das bruxas, queridas, teremos medo de nós mesmas! E nos queimaremos, pouco a pouco, sem que percebamos que o estamos fazendo.